- Corre, corre, corre e não pares!
Disse ele, eu sem pensar assim fiz, comecei a correr, a principio o arranque foi normal mas passados alguns momentos uma força começou a reter-me a corrida, com movimentos preestabelecidos e naturais o meu corpo começou aquela dança de correr para a frente e levantar os braços, e ele gritava:
- Corre, corre e não pares, isso está bom, agora não podes mesmo parar, vai corre.
Continuei a lutar contra a força que me retinha a marcha puxando-me para trás, levantei os braços e como que por magia a força acalmou, passando no entanto a puxar-me para cima, mas que raio pensei, não parava de correr e fazer força, os músculos do meu corpo começaram a dar sinais de quererem ceder perante a mistura de nervosismo, ansiedade e força exercida.
- Corre, corre, vais bem. – Gritava ele – Está quase mais um pouco.
E eu corria, corria, corria até que… o chão tinha fugido debaixo dos meus pés, quê!, mas que raio, o chão não estava por debaixo dos meus pés eu estava a correr no ar, de repente uma voz grita aos meus ouvidos:
- Muito bem, larga as bandas e senta-te.
Bandas mas quais bandas, mas que raio são as bandas?, pensei, há devem ser estas cordas que tenho nas mãos, larguei-as e puxei a cadeira que tinha por baixo, sentei-me e voltei a agarrar as cordas, nesse momento o meu cérebro acordou, sim bandas sim cadeira sim correr, eu conheço estes procedimentos todos são… mas os meus pensamentos foram interrompidos novamente pela voz:
- Puxa a banda da direita e vira começando a colocar-te em posição.
Assim fiz, puxei a banda da direita e comecei a virar à direita, olhei para baixo e vi alguém a acenar, a voz falou novamente:
- A partir de agora quem te guia é o homem do chão, ok?
Eu respondi automaticamente. – Certo. – Será que a voz me tinha ouvido, pensei.
Reparei que o homem do chão me acenava e que rapidamente me deslocava na sua direcção, ouço a voz no entanto uma voz diferente agora deve ser o homem do chão, pensei.
- Certo, vais bem assim, agora sai da cadeira e começa a correr.
Assim fiz, que sensação engraçada e de leveza eu de pernas penduradas no ar a correr sem o chão por baixo, no entanto este aproximava-se rápida e perigosamente, tão rápido que os meus pés lhe tocaram logo de seguida, corria, corria, corria, o chão era de areia, os meus pés enterravam-se até aos tornozelos atrapalhando os meus movimentos fazendo com que eu quase tropeça-se e caísse, a voz novamente ecoou na minha cabeça:
- Vais bem, corre não pares, isso, isso, agora puxa as bandas para baixo, rápido tudo até cá em baixo, força, força, isso vira-te e puxa, isso, isso e pronto já está muito bem.
Tinha parado, estava na praia os pés enterrados na areia até aos tornozelos, o meu corpo tremia do esforço físico, o suor escorria por todos os meus poros, tinha terminado.
A primeira voz volta a ecoar na minha cabeça, nessa altura fez-se luz a voz vem do auricular que eu tenho no ouvido, dizendo:
- Muito bem parabéns.
Olhei para o relógio, tinham passado cinquenta segundos desde que tinha começado a correr, cinquenta segundos pensei, mas como assim pareceram-me mais duas horas que cinquenta segundos, junto a mim surge o homem do chão e diz:
- Então gostaste? apreciaste a vista?
- Vista que vista? – Perguntei.
- Que vista o mar à tua frente.
- O mar? – Olhei e só então reparei que à minha direita estava o grandioso Oceano Atlântico, fiz uma retrospectiva mental do que se tinha passado e então sim, tinha visto o mar verde e azul, o céu azul as nuvens brancas, bandos de gaivotas, casas e pessoas, crianças e animais a brincarem na areia, tinha visto isso tudo, sim eu tinha visto no entanto não dei conta de nada, tudo se tinha passado num ápice, apenas o meu cérebro memorizara aquelas imagens.
Olhei para cima e vejo no alto de um declive de cerca de trinta metros os outros colegas a descolar, rapidamente se me juntaram na praia, também eles nervosos, também eles confiantes que da próxima vez iríamos apreciar a vista e sentir outras novas sensações, tinha sido assim o meu primeiro voo de parapente.
1ª voz, Paulo Manso – Instrutor de parapente na Associação Asas Livres, local onde ainda estou vinculado para acabar a minha formação.
Homem do chão, João Paulo.
Aqui fica o site da Associação http://www.asas-livres.com/